Oscar Wilde escreveu um dia que «o amor é eterno enquanto durar». Pois bem, o amor eterno entre Carla e Virgilio Maroso resistiu a quase sete décadas, depois da morte brutal do jogador do Grande Torino, a 4 de maio de 1949, em Superga. E quando resiste a sete décadas de memória, um amor tem estatuto para entrar na categoria da eternidade. Trata-se de uma história de paixão, que deve ser lida segundo os cânones de 1949,  que tem de ser contada entre os escombros da parede da catedral de Superga e os destroços do avião Fiat que transportava a equipa do Torino, que regressava de Lisboa onde tinha participado na festa de homenagem ao capitão do Benfica, Francisco Ferreira.

Virgilio Maroso, considerado, juntamente com Facchetti, Cabrini e Maldini, um dos melhores defesas esquerdos italianos de sempre, perdeu a vida, aos 23 anos em Superga. Natural de Crosara, perto de Veneza, Maroso jogou nas categorias inferiores do Torino, foi emprestado ao Alessandria, e regressou ao Grande Torino em 1945, onde venceu a Serie A por quatro vezes. Internacional em sete ocasiões, marcou um golo, precisamente a Portugal, no jogo de Génova, a 27 de fevereiro de 1949, onde começou a ganhar forma a fatídica viagem do Torino a Lisboa. Hoje há um estádio com o seu nome, em Marostica, perto da sua terra natal e há ruas em Roma e Jesi que o imortalizam.

A grande paixão de Maroso dava pelo nome de Carla, três anos mais nova, com quem se casara em 1948. No dia 3 de maio de 1949, Virgilio escreveu, do Estoril, onde comprou os selos da República portuguesa, um postal de amor à mulher, que só chegaria ao seu destino, no Corso Sebastopoli, 54, em Turim, depois do desastre de Superga, ocorrido no dia seguinte. É esse postal (que tinha escrito apenas «Baci comi mieldo [Beijos como mel] e que foi entregue na receção do hotel do Estoril, onde a equipa estava alojada, já depois do jogo, porque o carimbo, colocado sobre três selos da República Portuguesa de três tostões cada, regista a expedição  a 4 de maio, dia do acidente) que pode ser visto na Exposição temporária do Torino que está no Museu Cosme Damião, ao lado da mala de Virgilio Maroso, que tem, num dos cantos, um autocolante da Costa do Sol, obtido no hotel onde o Grande Torino se instalou na preparação do jogo com o Benfica, disputado nesse mesmo dia. 

Luís Lapão, curador do Museu do Benfica e co-curador, com Andrea Ragusa da Exposição em exibição na Luz, afirmou a A Bola, a propósito: 

 «Esta mala e este postal estiveram nas mãos de Virgílio Maroso, um dos jogadores mais conhecidos do Grande Torino e da seleção italiana.  É emocionante pensar como, 75 anos depois da tragédia, esta mala que ficou praticamente intacta, regressando agora a Lisboa. Quanto ao postal, escrito no dia do jogo, foi o último gesto de comunicação do Maroso com a família, neste caso com Carla Maroso, a sua mulher. Quando o postal chegou a Itália já se tinha dado a tragédia. Regressando à mala, saliento o aspeto estético do objeto, que é belíssimo, e estes autocolantes coloridos que eram prática corrente na época. No canto superior direito conseguimos identificar, embora não esteja completo, um autocolante da Costa do Sol, onde se situava o hotel, no Estoril, onde a equipa ficou alojada. Trata-se de um objeto que pertence ao Museu do Torino e que, graciosamente, nos foi trazido de Itália ,  de automóvel, não veio de avião.»

Carla Maroso, que faleceu aos 89 anos, em 2018, nunca esqueceu, por um minuto que fosse, Virgilio, fazendo questão de lembrar que, depois de o ter conhecido, nunca mais foi ao Filadélfia (estádio histórico do Grande Torino), «porque ele tinha ciúmes dos outros, e preferia que ficasse em casa. Inclusivamente, quando o Virgilio teve uma pubalgia, que lhe provocou uma paragem de seis meses, muitos amigos iam a nossa casa; houve um dia em que o meu marido pediu a todos que saíssem, porque queria estar só comigo», afirmou à agência Ansa. 

A viúva de Virgilio Maroso, mesmo na fase final da vida, em que tinha de deslocar-se em cadeira de rodas, nunca falhou uma ida, a 4 de maio, a Superga, onde o amor da sua vida se transformou-se numa das figuras icónicas da lenda do Grande Torino.