
Antes do esperado, começaram esta quinta-feira os trabalhos para retirar os primeiros três de 20 jacarandás que a Câmara Municipal de Lisboa pretende transplantar da Avenida 5 de Outubro para outros locais na freguesia das Avenidas Novas. A prioridade dada ao transplante de jacarandás, tinha sido anunciada pela diretora municipal dos Espaços Verdes, Catarina Freitas, na conferência de imprensa realizada na terça-feira sobre o tema, argumentando haver uma janela temporal limitada para que tenha sucesso. Então também adiantou que os trabalhos começariam na próxima semana, “mas os primeiros três transplantes estavam previstos para esta semana".
Na conferência de imprensa, a vereadora do Urbanismo Joana Almeida, e a diretora municipal dos Espaços Verdes, Catarina Freitas, informaram que dos 75 jacarandás existentes na Av. 5 de Outubro, 25 seriam abatidos, 30 mantidos, e 20 seriam transplantados, juntamente com dois plátanos, para espaços verdes na freguesia das Avenidas Novas, incluindo o futuro eixo central desta avenida que não terá estacionamento de carros à superfície e manterá um dos alinhamentos de jacarandás. No total apontou para a replantação de 39 jacarandás e 49 outras árvores e que os passeios vão alargar para três metros e passar a ter outras árvores, como pereiras.
Estas intervenções estão relacionadas com um contrato feito entre a CML e a Fidelidade Property, que está a construir um empreendimento no terreno da antiga Feira Popular, e que vai construir o novo parque de estacionamento subterrâneo na 5 de outubro, associado ao empreendimento.
Uma petição contra esta intenção – com o título “Não ao abate dos jacarandás da Av. 5 de Outubro” – conta já com mais de 49 mil assinaturas. Entretanto, foi marcada para esta quinta-feira uma reunião entre um grupo de peticionários e a vereadora do Urbanismo, Joana Almeida (independente eleita pela coligação "Novos Tempos" PSD/CDS-PP/MPT/PPM/Aliança), adiantou fonte da câmara. Na terça-feira, a vereadora disse que iriam responder à petição com duas apresentações públicas para "clarificar o projeto" urbanístico previsto para a zona de Entrecampos. Estas foram marcadas para as 18h desta sexta-feira e as 17h30 da próxima quarta-feira, no Centro de Informação Urbana de Lisboa.
"O jacarandá é a nossa identidade, o nosso património. Neste executivo, salvamos jacarandás", garantiu a vereadora do Urbanismo. Joana Almeida disse que o contrato com a Fidelidade Property tinha sido assinado em 2019, com “o programa completo para toda a área", antes do atual executivo ter tomado posse. E que o executivo de Carlos Moedas "não podia" mudar o projeto em curso para um terreno com cerca de cinco hectares "abandonado há 30 anos", sob pena de a cidade ficar "parada durante mais uns bons anos". Assinalou também que vão passar a haver 118 árvores no eixo visado no projeto urbanístico, que "ganhou um prémio por características de sustentabilidade".
Na quarta-feira, em reunião pública do executivo municipal, o PS e o PCP ressalvaram que o projeto inicial não previa abate de árvores.
PAN avança com providência cautelar
Entretanto, o PAN anunciou esta quinta-feira que vai avançar com uma providência cautelar para "travar de imediato os abates e a transplantação destas árvores" e "promover a auscultação dos cidadãos e encontrar uma alternativa". O anúncio foi feito pela líder do PAN, Inês de Sousa Real, em declarações aos jornalistas na Avenida 5 de Outubro, em Lisboa, ao lado do primeiro jacarandá retirado pela Câmara Municipal de Lisboa.
Inês de Sousa Real argumentou que o país "tem compromissos sérios com a proteção da biodiversidade" e que, embora os jacarandás não sejam espécies protegidas, "fazem parte da identidade da cidade" e têm um "cunho paisagístico no arvoredo que tem que ser preservado".
Apesar de as operações já estarem a decorrer, a deputada acredita que a providência cautelar ainda vai a tempo de impedir que os trabalhos prossigam: "Aliás, nós só não tínhamos dado a entrada da providência antes, porque Carlos Moedas disse que ia ouvir os cidadãos”, informou, considerando a atitude da CML “um claro desrespeito em democracia” por ter dito que iria ouvir os cidadãos antes de avançar com o abate das árvores. Também classificou a atitude do executivo de Moedas de “prepotência e arrogância”.
"Procurado por atentado ambiental. Recompensa: cidade com mais biodiversidade" – lê-se num cartaz afixado num dos jacarandás por cidadãos presentes no local.
Sousa Real sublinhou que plantar "mais árvores" novas não substitui "árvores seculares e maduras" , lamentando que o executivo de Moedas não tenha em maior consideração a preservação do património ambiental e natural de Lisboa. Mais: insistiu que o abate do arvoredo urbano não contribui em nada para a saúde e o bem-estar da população.
O PCP também está na luta contra o arranque dos jacarandás e de acordo com essa linha de ação diz estar de acordo com a providência cautelar do PAN e todas as "ações e forças que se oponham à retirada das árvores". "Estivemos sempre com oposição a esta intervenção e hoje à revelia de todas as informações que a Câmara foi fornecendo na vereação e do que foi dito aos municípes os jacarandás já estão a ser arrancados. Não podemos deixar de assinalar o profundo desrespeito pelo que é a vontade dos cidadãos", diz ao Expresso a veradora comunista na CML, Ana Jara, apontando para a petição de cidadãos que conta já com cerca de 50 mil assinaturas contra o abate dos jacarandás na Avenida 5 de Outubro.
Segundo a vereadora do PCP, não há ainda escavações para o parque de estacionamento, sendo perfeitamente possível o executivo municipal negociar com o promotor imobilário para travar esta situação. "Fica demonstrada a manifesta total incapacidada da gestão de Carlos Medas de gerir este conflito. São árvores muito queridas e simbólicas da cidade de Lisboa e não há nada mais triste para quem trabalha e estuda em Lisboa do que a morte de um jacarandá, o que motivou a revolta", acrescenta Ana Jara, acusando ainda a autarquia de não "cuidar dos espaços verdes" e ignorar os interesses dos municípes.