
— A Sofia chegou à Seleção sénior com 17 anos?
— Certo.
— E já passaram outros tantos, metade da carreira à espera deste momento, a presença no Eurobasket. Como é que foi?
— Foi duro, não é para mentir, foi muito duro. É verdade que foram poucas as vezes em que quis desistir. Houve um momento em cheguei perto. Pensava: 'Já dei tudo e já não sei como posso ajudar mais ou o que é que é preciso’. Chegou a uma altura que ficou tudo assim, meio nublado.
— E quando foi que aconteceu?
— Foi precisamente há dois anos. Em Manchester. Depois de Manchester tive um breakdown. Tínhamos esse jogo contra a Grã-Bretanha em que se ganhássemos conseguíamos a qualificação pela primeira vez, e acho que foi o facto de estarmos tão perto, depois de tantos anos… Tantos anos a tentar…Foi duro. Não posso falar pelas outras pessoas, mas custou-me imenso aceitar esse momento. Era só um jogo… Não gosto de dizer que as coisas acontecem por alguma razão, mas nesse caso acho que foi... Acho que precisávamos de levar esse safanão, não é? Para depois seguir. Às vezes é preciso dar um passo atrás para depois poder dar um à frente, não é?
— E agora que finalmente aconteceu…
— Foi espetacular!
— Como é que celebrou? O que é que sentiu?
— Acho que ainda não celebrei o suficiente [risos].
— Mas agora terá de esperar mais um bocado...
— Sim, às vezes nem consigo explicar bem. Tanto tempo à espera deste momento, não só eu, outras jogadoras também que entraram mais ou menos na mesma altura que eu, outras que entraram mais tarde e que tinham as mesmas ambições. A felicidade é tanta que às vezes nem acredito que já estamos no Europeu e que dentro de três meses vamos disputar esses jogos e representar Portugal da melhor maneira possível. Emociona-me porque, como desportistas, é isto que nós queremos. Chegar a estes pontos altos e defender as cores do nosso País ainda mais, se é que é possível.
— Foi para isto que sofreu durante 17 anos?
— Exatamente, exatamente. Foi para este momento que sofri tanto tempo, 17 anos!
— À parte da Seleção Nacional, a Sofia partiu e já representou vários clubes.
— Sim, nasci em Coimbra, mas os meus pais são da Guiné e só aos 18 anos tive nacionalidade portuguesa porque antigamente mesmo que tivesse nascido em Portugal se os pais tivessem outra origem só poderia tratar da documentação com 18 anos.
— E como é que foi chamada para a Seleção antes da maioridade?
— Estava lá, treinava, mas não podia jogar. No meu primeiro ano, penso que sub-16 também tinha sido chamada para uma convocatória, mas só fazia os treinos. É verdade que também não tinha qualidade para ir ainda a um Campeonato da Europa, vamos ser sinceras, as coisas como são [risos].
— Nessa altura jogava em Coimbra e veio para Lisboa, para o Algés? Estudar?
— Sim. Um ano depois fui para os Estados Unidos.
— E como é que foi essa experiência nos Estados Unidos?
— Foi diferente, porque eu tinha outra ideia, tinha outra expectativa, o american dream, não é? Imaginava que todos eram profissionais, mas, no meu caso, a experiência não foi bem assim. Não correu lá muito de feição no Tallahassee.
— E depois seguiu para Espanha?
— Sim, a Sónia Reis é que deu o meu nome por aí, porque duvido que me conhecessem na altura. E ela deu o meu nome e tive o primeiro ano no AE Sedis Basquet e depois nos anos seguintes continuei por Espanha.
— Uma carreira construída sempre fora de portas?
— Sim.
— Era a única forma de ser profissional? Porque em Portugal o campeonato não era suficientemente atrativo ou porque foram surgindo os convites?
— Nessa altura o campeonato era mais competitivo, depois é verdade que foram também mais jogadores portugueses, na minha opinião o nível baixou um bocadinho também, mesmo a nível de americanas. Mas nos tempos em que eu estive em Portugal, o campeonato era bastante competitivo e atrativo. Só que eu também sempre me achei uma cidadã do mundo. Gostava de conhecer outras culturas, de viajar e experimentar outras coisas.
— Não se arrepende desse passo, de ter feito a carreira toda lá fora?
— Não, não, não.
— E passa-lhe pela cabeça regressar?
— Já me passou, mas agora mesmo diria que não. Ou seja, tinha de depender porque eu sempre pensei que ia acabar na Académica, não é? Para voltar, gostava de voltar onde comecei. Nunca se sabe, nunca se sabe. Estou sempre aberta a outras experiências.
— E ainda tem muitos anos para jogar…
— Joga-se até aos 50 [risos].
— A Sofia é profissional de basquetebol, correto?
— Sim, dedico-me em exclusivo.
— E quando, aos 50 anos, decidir acabar a carreira, o que pensa fazer?
— Eu gostava de dar uma resposta assim concreta, mas é verdade que há muitas coisas que eu gostava de fazer, então ainda não sei ao certo. Sempre fui muito da área das artes e também claro da parte desportiva.
— É daquelas jogadoras que sofre muito? Grita muito em campo?
— Sim é uma forma de motivar. Sou muito de emoções, de tentar puxar esse lado mais do coração, de que às vezes o basquetebol não tem de ser pensado, mas às vezes tens que também ir com o teu instinto e eu sou mais dessa... Sou 60, 40%.
— E o que disse a capitã no balneário antes do jogo decisivo?
— Eu costumo falar, a ver se me lembro, porque às vezes...
— Não tinha o discurso preparado?
— Às vezes preparo, mas depois quando chego, também gosto de sentir as sensações, às vezes quero puxar um bocado mais, outras vezes já vejo que o pessoal está preparado, não é preciso dizer muito. Lembro-me de dizer algo do género que era importante desfrutar, que já estávamos há muito tempo a preparar para este momento. A pressão não havia, sinceramente, elas já estavam qualificadas. É verdade que era a Sérvia, que queriam acabar sem derrotas, mas que não havia nada a perder. Só sermos nós mesmas e dar o nosso melhor, representar Portugal da melhor maneira possível e que as coisas, certeza, desta vez ia correr bem para o nosso lado. E assim foi.
No dia do jogo, lembro-me que levantei-me também bem disposta. Eu e a Lavinía Silva, que era a minha companheira de quarto, fizemos música e dançámos e normalmente isso não é muito comum em mim. Em dias de jogos e alturas importantes, gosto de estar focada, mas não sei, estava com o flow. E disse-lhe: ‘hoje estou com um bom feeling.’
— Isso foi antes do jogo cá? Era tudo ou nada. Dormiu bem na noite anterior?
— Dormi, por acaso. Sim, dormi bem, lembro-me que levantei-me também bem disposta. Eu e a Lavinía Silva, que era a minha companheira de quarto, fizemos música e dançámos e normalmente isso não é muito comum em mim. Em dias de jogos e alturas importantes, gosto de estar focada, mas não sei, estava com o flow. E disse-lhe: ‘hoje estou com um bom feeling’.
— Joga com o número 14 por opção ou foi porque foi distribuído assim?
— Jogo com o número 14 porque é o dia de aniversário da minha mãe, 14 de outubro de 1963, porque como jogo com o apelido do meu pai, queria ter também algo da minha mãe e assim ficam os dois.
— E o basquetebol começou um bocadinho por acaso, certo? E depois tornou-se uma paixão?
— Sim, sim. Sempre senti que as pessoas às vezes falam de profissionalismo em termos salariais, mas sempre me considerei profissional. Às vezes as pessoas não dão muita importância, mas faltar aos momentos importantes dos teus amigos, da tua família, por um treino… Sempre fui profissional. Com 16, 17 anos já tinha essa mentalidade, não podia faltar aos jogos, aos treinos, e isso foi crescendo. Não esperava, mas faz-me muito feliz.
Jogo com o número 14 porque é o dia de aniversário da minha mãe, 14 de outubro de 1963, porque como jogo com o apelido do meu pai queria ter também algo da minha mãe e assim ficam os dois.
— Falou na questão salarial, em Portugal conseguiria viver do basquetebol?
— Não, não. Em Espanha os salários são mais altos e mesmo assim dá-nos uma janela para poder começar, mas a discrepância é grande.
— E em relação aos homens, essa diferença é ainda maior ou nem por isso?
— Muito maior. Eles cobram numa época o que nós não vamos cobrar a vida inteira. A diferença entre o feminino e o masculino é transversal a quase todas as modalidades e esse é outro trabalho, esse é outro longo caminho a trilhar. As pessoas gostam de dizer que o desporto feminino não vende, vende, as pessoas é que não querem apostar. Há muito trabalho para fazer!