O estudo "Automação e inteligência artificial no mercado de trabalho português: desafios e oportunidades" categoriza 120 profissões em Portugal mais expostas às mudanças tecnológicas associadas à inteligência artificial e automação, com base nos potenciais efeitos destrutivos e transformativos.

Segundo o estudo, as "profissões em ascensão", que podem beneficiar dos efeitos da digitalização e da IA, representam 22,5% do emprego em Portugal, sendo a segunda classe menos populosa.

Por outro lado, 12,9% das profissões encontra-se categorizada no "terreno das máquinas", podendo também usufruir de ganhos de produtividade com o uso da IA, segundo a análise, realizada com base nos dados dos Quadros de Pessoal do MTSSS, referentes a 2021, e que abrange 3,2 milhões de trabalhadores (quase totalmente do setor privado).

Isto significa que "a larga maioria do emprego não está posicionada para desfrutar dos efeitos positivos que podem advir da complementaridade da inteligência artificial com o trabalho humano", conclui o estudo coordenado por Rui Baptista, professor do Instituto Superior Técnico.

Neste contexto, o estudo refere que mais de um terço dos trabalhadores (35,7%) está em profissões pouco expostas à automação, mas também com fraco potencial de transformação, categorizadas como no "terreno dos humanos".

Ainda assim, quase três em cada dez (28,8%) estão categorizadas como "profissões de colapso", podendo enfrentar "sérios riscos" de desaparecer, "dada a sua vulnerabilidade à disrupção tecnológica".

Este é, aliás, o segundo grupo de maior dimensão, depois das profissões do "terreno dos humanos". É nesta categoria que inserida aquela que é considerada como a maior profissão em Portugal: "outros trabalhadores relacionados com vendas", que correspondia a 5,3% do emprego em 2021.

No 'top' 10 das maiores profissões estão ainda outras duas "profissões em colapso": "outras profissões elementares", com uma quota de 3,1% no emprego, e "empregados de mesa e bar", com uma quota de 2,5%.

Por outro lado, segundo este 'policy paper', que faz parte de um estudo mais alargado que ainda será divulgado, nenhuma das 10 maiores profissões em Portugal está categorizada como uma "profissão em ascensão".

Além disso, os trabalhadores nas "profissões em colapso" são também os que, em média, têm rendimentos mais baixos e poucas qualificações, enquanto os abrangidos pelas "profissões em ascensão" têm "rendimentos do trabalho mais elevados, devido às suas "exigências avançadas ao nível das competências digitais", assim como um maior número de qualificações: 63,4% têm, pelo menos, um diploma de ensino superior (o que compara com apenas 5,4% nas profissões em colapso).

Os autores do estudo alertam, por isso, que os trabalhadores nas "profissões em colapso" estão numa "posição mais vulnerável em caso de desemprego ou de emprego precário" e pedem "soluções urgentes para a provável restruturação ou desaparecimento dos respetivos empregos".

"Assim, os decisores políticos deverão desde já acautelar um cenário de pressão adicional sobre o sistema de Segurança Social e considerar a implementação de políticas ativas, com objetivos como a requalificação dos trabalhadores e dos desempregados, bem como a reinserção de desempregados no mercado de trabalho", lê-se.

Neste contexto, os autores desta análise apresentam sete recomendações de políticas públicas, considerando que deve ser dada "prioridade central" à promoção da adaptabilidade da força de trabalho, "através de programas de requalificação focados nos trabalhadores em profissões classificadas como "profissões em colapso", bem como reforçar os mecanismos de proteção social.

Ao mesmo tempo, dizem ser "urgente rever os currículos escolares e académicos para incorporar a literacia digital, o domínio de ferramentas de inteligência artificial e competências relacionadas com análise e comunicação" e defendem que "a adoção de tecnologias emergentes deve ser estimulada com incentivos financeiros e apoio técnico às empresas", nomeadamente "subsídios, benefícios fiscais e suporte técnico especializado".

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