
Tendo em conta a diferença de produtividade entre os Estados Unidos e a União Europeia, identificada no Relatório Draghi, sobretudo nas áreas tecnológica e financeira, Piero Cipollone, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu (BCE), defende que é preciso apostar no desenvolvimento destes dois domínios. “Os pagamentos digitais e as finanças digitais estão na intersecção destes dois setores. E estão a desenvolver-se rapidamente, impulsionados por mudanças nos hábitos e na tecnologia. Trata-se de uma oportunidade e de um risco para a Europa. É uma oportunidade para colmatar o fosso através do desenvolvimento de soluções europeias inovadoras e competitivas. Mas se não aproveitarmos essa oportunidade, corremos o risco de enfraquecer a nossa competitividade, resiliência e autonomia estratégica”, refere Cipollone numa comunicação divulgada nesta sexta-feira pelo BCE. O dirigente vai mais longe e diz mesmo que se trata de “uma questão crucial” e que, “em última análise o que está em causa é o futuro da nossa moeda”.
Na sua apresentação, explica que, atualmente, o euro é a segunda moeda mais importante do sistema monetário internacional. A sua quota-parte numa série de indicadores é de cerca de 20% e a zona euro representa cerca de 12% do PIB mundial. “Se quisermos evitar que o euro perca importância na cena mundial, as transações e os investimentos em euros têm de ser considerados seguros, fáceis e eficientes, mesmo quando a digitalização transforma os pagamentos e as finanças”, refere.
É preciso unificar soluções
Cipollone sublinha que os pagamentos e as finanças permanecem frequentemente fragmentados em função das fronteiras nacionais, impedindo-nos de tirar pleno partido dos benefícios do mercado único europeu. No que diz respeito às transações de retalho – pagamentos efetuados diariamente pelos consumidores e pelas empresas – a dependência de soluções não europeias “enfraquece a nossa autonomia estratégica e constitui um entrave ao crescimento da produtividade”, destaca. Por isso, questiona: “Porque é que não temos um VISA ou um Mastercard europeus?”. Acrescentando que o euro digital, ou seja, uma moeda do banco central em formato digital para as transações de retalho, “dar-nos-ia a oportunidade de aumentar a eficiência, a concorrência, a inovação e a resiliência, permitindo simultaneamente que as soluções de pagamento privadas europeias ganhassem escala e protegessem a nossa soberania monetária”.
No que toca às transações por grosso, ou seja, entre instituições financeiras, o responsável do BCE refere que é preciso “evitar repetir o erro que cometemos no setor retalhista e assegurar que proporcionamos as condições para que os intervenientes europeus se mantenham à frente dos seus concorrentes”. Na sua perspetiva, a oportunidade está em aproveitar as novas tecnologias para “criar, desde o início, um mercado europeu integrado para os ativos digitais, ou seja, uma união europeia dos mercados de capitais”.
Transações em numerário diminuem
Na área do euro, o valor das transações em numerário é inferior ao das transações em cartão. A percentagem de empresas que declaram não aceitar numerário também triplicou nos últimos três anos, atingindo 12%. Sendo provável que a tendência de diminuição da utilização de numerário nas transações quotidianas continue a verificar-se devido à digitalização da economia.
A questão na Europa, alerta, é que os cartões emitidos pelos sistemas de pagamento europeus se destinam principalmente aos mercados nacionais. Para efetuar pagamentos em todos os países europeus, os consumidores têm de recorrer a alguns prestadores não europeus. Mais de dois terços das transações com cartões na área do euro foram liquidadas através de sistemas de pagamento internacionais no segundo semestre de 2023 e 13 dos 20 países da área do euro dependem inteiramente de soluções não europeias na ausência do seu próprio sistema de pagamento nacional. Consequentemente, “um dos principais objetivos da moeda do banco central é oferecer ao público um meio de pagamento apoiado pela autoridade soberana que possa ser utilizado para transações de retalho em toda a área monetária”, refere.
O dirigente prossegue referindo que os pagamentos europeus são um “excelente exemplo” da situação descrita por Mario Draghi. Nomeadamente, “a fragmentação do mercado em função das fronteiras nacionais, a falta de soluções de pagamento europeias disponíveis à escala europeia e a dificuldade dos prestadores de serviços de pagamento europeus em acompanhar os progressos tecnológicos significam que a Europa não é competitiva no seu próprio mercado, quanto mais à escala mundial”.
Por isso, apela à ação para assegurar a integração e a autonomia do sistema de pagamentos europeu.“Esta é uma das principais razões subjacentes ao projeto do euro digital: trazer a moeda do banco central para a era digital. Ao fazê-lo, as empresas e as famílias disporiam de um equivalente digital às notas de banco e reforçariam a nossa soberania monetária”, sublinha.