A notícia não foi surpresa, mesmo assim entristece. O Brasil amanhece este sábado com a informação de que morreu Luís Fernando Veríssimo, aos 88 anos, debilitado por um AVC que sofreu em 2021 e pela doença de Parkinson.

Há cerca de três semanas surgira a informação de que o escritor tivera de ser internado numa unidade de cuidados intensivos, com uma pneumonia e, desde então, as homenagens na imprensa brasileira começaram a multiplicar-se.

Um exemplo de que um filho pode construir um caminho autónomo em relação ao do pai, mesmo que na mesma profissão, a obra de Luís Fernando não se deixou ofuscar pela do pai, Érico, ícone da literatura brasileira e autor da epopeia “O Tempo e o Vento” ou de romances como “Incidente em Antares” e “Olhai os Lírios do Campo”.

Autor de trabalhos que se espalharam pelas páginas de jornais e livros, os seus textos acutilantes e irreverentes transbordaram para a televisão, o cinema e o teatro. A sua narrativa surpreendia pela informalidade e pela ironia com que abordava os temas, dessacralizando mesmo assuntos que poderiam parecer dramáticos.

Criou personagens que se tornaram conhecidas dos brasileiros, como o “analista de bagé” e a “velhinha de Taubaté”. Na década de 90, a sua obra encontrou gerações então mais jovens, ao escrever os argumentos da série televisiva “Comédias da Vida Privada”.

A sua maior contribuição para as letras brasileiras terá sido, sobretudo, na crónica, principalmente no jornal “Zero Hora”, onde começou a trabalhar como revisor, em 1966. O seu primeiro livro viria a ser publicado sete anos mais tarde, com o título de “O Popular”. No total foram mais de 70 livros publicados e 5,6 milhões de exemplares vendidos, entre crónicas, romances, contos e bandas desenhadas. Também no Expresso, as suas crónicas foram publicadas, em 2010.

Luís Fernando morreu onde nasceu, em Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, cidade marcada pela identidade gaúcha, típica dos habitantes do sul do Brasil e que, há um ano, sofreu grandes inundações, que mataram mais de 180 pessoas e também afetaram o escritor, cuja casa ficou sem acesso a água potável durante vários dias.

Discreto, Luís Fernando vivia na casa que o pai comprou em 1941, no regresso da família, após uma estadia nos Estados Unidos, onde Érico ensinou nas universidades de Yale e Berkeley. Apaixonado por futebol e pelo clube Internacional, foi músico amador, tocava saxofone e era aficionado pelo jazz.

Numa entrevista à televisão do seu estado, entreabriu a porta da sua personalidade: “Minha timidez é... Por exemplo: tenho horror de fazer isso que estou fazendo agora: dar entrevista, falar em público e tal. Eu sempre digo que não dominei a arte de falar e escrever ao mesmo tempo, são duas coisas que se excluem, então é nesse sentido é que se manifesta a minha timidez.”

Mas, do silêncio com que partiu ficará o maior sinal da sua forma de ser. Acusado de dar respostas curtas, reagiu certa vez: “Não sou eu que falo pouco, os outros é que falam muito.