Desprezamos o tédio e os que entediam, mas fazem parte da nossa vida. Não queremos vidas enfadonhas, mas não temos forma de levar apenas rotinas imprevisíveis, pautadas por aventura e surpresa.

Cruzamo-nos com o tédio e não sabemos como proceder: parece que nos passam um recém-nascido para os braços. O tédio vem ter connosco e deixa-nos nervosos. Revelamos imediatamente o nosso desconforto perante a condição «Não-Ter-Absolutamente-Nada-Para-Fazer». Porque vivemos maioritariamente entre ecrãs, de cada vez que somos expostos a conteúdo pouco excitante, entramos em choque e ficamos encravados. Depois, viramo-nos para os passatempos, que não são mais do que manobras de diversão falíveis. Julgamos que o despistamos, mas enganamo-nos. O tédio volta e, quando volta, volta ainda mais forte, reforçando o nosso horror ao vazio.

Quando não estamos entretidos, assistimos à falência da nossa própria humanidade. Não temos vivido para entreter, mas para sermos entretidos. Talvez seja por isso que já não apresentamos capacidade para enfrentar o tédio – e se calhar nunca apresentámos. Fugimos dele a sete pés. Ficar a sós com os nossos pensamentos? Impensável. Sabemos lá lidar com secas descomunais. Notícias (mais boas do que más): ao contrário das que têm impacto climático, estas secas são cada vez mais raras.

Está visto que o tédio é mais forte do que nós. Devemos aceitá-lo como quem reconhece que há lutas impossíveis. A abnegação não é sinal de fraqueza, mas de pensamento estratégico. Podemos por o tédio e as secas que ele nos dá a render. Há um certo masoquismo nesses momentos. É quando atravessamos períodos de seca intensíssimos, durante os quais nada se passa, que encontramos o verdadeiro descanso, livre de pressas ou pressões, e descobrimos qualquer coisa nova sobre nós próprios. Nem sempre acontece, mas, quando acontece, é maravilhoso – e nem temos de pegar num livro, ver um filme ou falar com alguém. É fácil: basta estar acordado. Mas, num mundo hiper-estimulado e hiper-estimulante, está difícil apanhar uma grande seca porque as distrações não acabam.

O tédio anda desaparecido. Tenho saudades dele. O tédio é um bom amigo. É certo que não é a companhia mais divertida, mas, com ele, sei que estou calmo, já que ele é um privilégio. O tédio é um luxo desejado por muitos, mas admitido por poucos. Quem está aborrecido está bem porque não tem preocupações maiores. Se está aborrecido a ler este artigo, acredite: está bem e tem muita sorte. É assim: o doente é doente, o infeliz é infeliz e o que está entediado está simplesmente entediado. O tédio, que se manifesta a espaços e a tempos, passa sempre, ao contrário das condições supremas.

Bom anfitrião como é, o tédio convida-nos a entrar num estádio muito humano onde – que engraçado – nada se passa. Só o tempo mesmo. Sabemos que não se trata do convite mais interessante do mundo. Como não temos maneiras, acabamos por revelar a nossa falta de decoro,

– Não, não, deixa estar. Não te incomodes. Fica para a próxima

mas o tédio está-se nas tintas e carrega. É como aqueles amigos que sabem do que precisamos e que, fintando as nossas recusas, arranjam sempre maneira de nos dar a volta. Por isso, com mais ou menos vontade, lá acabamos com ele. Pode ser que os convites sucessivos sejam apenas a sua forma de nos mostrar que grande parte da vida é uma boa seca e que devemos rentabilizar os momentos em que aparentemente nada se passa.

Agora, esparramado no sofá, suspiro e desbloqueio e bloqueio o telemóvel. Abro o jornal (uma app como outra qualquer) e verifico que o mundo, explosivo e louco, não me dará descanso tão cedo. O tédio bate à porta. Tardou, mas chegou. Abro a porta e deixo-o entrar. Atiro-me de novo para o sofá e aproveito este tempo morto cheio de vida porque, muitas vezes, do que preciso é de fazer bola. O tempo que se suspende é tão importante quanto o que se dilata. Tudo passa, mas, por vezes, nada se passa. Viver consegue ser uma seca das boas.